KINOMICHI
Entrem na espiral da energia

“Assim que entro no dojo (lugar de prática de artes marciais), estou em outro lugar, em outro mundo”, revela Arlette, que vem todas as semanas de Blois, para seguir as aulas do mestre Masamichi Noro em Paris. É verdade que passando a porta, penetramos num espaço de brancura luminosa. Autêntico representante da cultura tradicional nipônica, mestre Noro ensina o kinomichi (“caminho da energia”), disciplina que ele criou há vinte anos reconhecida desde 2001 pelo Ministério da Juventude e dos Esportes como prática afiliada a FFAAA – Federação Francesa de Aïkido, Aïkibudo e Afinidades. Procedente do aïkido, do qual ela retomou os movimentos – desviando-os do objetivo principal deles, a defesa – e das ginásticas ocidentais, este ensinamento exclui qualquer agressividade em prol da harmonia. No espírito do yin e do yang, o kinomichi desenvolve o equilíbrio das forças presentes, único meio de chegar à unidade, seja com o universo – a terra e o céu – ou com os outros. Essa busca passa pela aprendizagem, com as mãos livres ou com um bastão de madeira, alongamentos relaxantes e energéticos, mas também movimentos em espiral praticados a dois.

Sentado sobre os calcanhares, com as mãos abertas sobre o tatame, o corpo curvado para frente em sinal de respeito, a aula começa com uma saudação entre alunos e mestre como no cerimonial japonês. Em seguida vem o exercício chamado “contato”: dois a dois, os “parceiros” se colocam de frente um para o outro. Palma contra palma, eles lançam lentamente os braços em direção ao céu, depois os fazem descer à direita ou à esquerda e viram sobre eles mesmos sem se soltarem. Estes alongamentos permitem a tomada de consciência de cada parte de seus corpos, o relaxamento e sensação da circulação da energia. Além disto, eles ensinam o contato físico com o outro, de forma harmoniosa… e sem segundas intenções sexuais. “O que é bom no kinomichi é que trabalhamos com homens, com mulheres, com jovens, com velhos, com crianças, com adultos… O importante está no equilíbrio das energias dos dois parceiros, seja quem forem”, comenta Arlette. O que conta é conseguir, a dois, realizar um movimento justo. A técnica é só um meio para se chegar a este “estado de graça”.

SAIR DAS RELAÇÕES DE FORÇA

Como um violinista, o praticante aprende a decompor os movimentos, a encontrar a posição certa, a se integrar com seu parceiro, a executar cada vez mais rapidamente trechos cada vez mais complexos. Daí os cinco níveis de iniciação. Primeiro aprende-se os seis primeiros movimentos – três chamados “de céu” (pois voltados para o alto) e três “de terra” (voltados para baixo). Depois são desenvolvidos os sentidos do espaço, o dinamismo e a abertura do outro. No início, uma hora por semana raramente é suficiente. Para não ficar desencorajado é melhor passar rapidamente o primeiro nível – pelo menos vinte aulas – pois o kinomichi não se improvisa. Deve-se aprender a efetuar os movimentos a dois, que para terem êxito devem esquecer do ego em prol da entidade formada pelos dois praticantes, deve-se sair das relações de força, confiar em desconhecidos e tornar-se tolerantes… Enfim, por trás dos movimentos que, de longe, podem parecer estéticos e banais, se esconde uma verdadeira escola de vida. “Tenho a impressão de ser reeducado”, diz Jérôme, inspetor de polícia. E ele explica: “No kinomichi, eu sou confrontado a uma filosofia de deixar ‘fugir a presa’ tão oposta à minha cultura ocidental que isto cria conflitos em mim. Por dez vezes achei que iria parar, porque colocava meu modo de funcionamento profundamente em dúvida.” Jérôme perseverou e hoje ele reconhece que entende melhor a outras pessoas, que não tem mais preconceitos e que está à escuta dos outros. “Isto mudou positivamente a maneira de exercer minha profissão.” Ele não é o único a afirmar que o kinomichi é a origem de uma transformação em sua vida quotidiana.

CHEIO DE CONFIANÇA EM SI PRÓPRIO

Hélène, 79 anos, dos quais dez de kinomichi atesta sua eficácia para manter a forma: “Eu ganhei muito em flexibilidade, apesar da minha idade avançada. É uma atividade muito dinâmica!” Lucian Forni, instrutor sexagenário – formado pelo mestre Noro, assim como todos os instrutores desta disciplina – confirma que “adquirimos mais fôlego e resistência” e que não há risco de se machucar porque “não forçamos nunca e sempre trabalhamos na direção das articulações”.

De fato, diferente de algumas ginásticas, não há questão de “domar” seu corpo nem exigir dele desempenhos excessivos. Pelo contrário, o mental deve parar de dirigir e deixar o corpo agir. É a este preço que o bem-estar corporal e a paz de espírito podem ser conquistados. Nathalie, dona de casa, concorda: “O kinomichi limpa, purifica, regenera, recoloca os pêndulos no lugar.” Hélène também admite que é muito bom para a moral: “É uma excelente forma de se limpar e também de se encher de confiança em si mesmo.” “E encher o outro também!” diz Michel artista plástico. “Fazendo os movimentos a dois, estamos no mundo do outro. Esse trabalho sobre o vivo é muito rico.”

Esta descoberta do outro, inseparável da descoberta de si mesmo, não passa por uma interiorização meditativa, mas por uma disponibilidade consciente de seu ser inteiro. Mestre Noro não pára de repetir isto a todos os seus alunos com expressões que são características dele: “Quando você tem alguém muito ‘sexy’ na sua frente, deve olhá-lo. Ficar concentrado não é ficar constipado!” E com um sorriso luminoso ele lembra que “o kinomichi é a alegria”.

LIÇÕES DE VIDA DE MESTRE NORO

Mestre Masamichi Noro sempre cita Sensei Ueshiba, fundador do aïkido, do qual ele foi discípulo: “a técnica só é um instrumento para a realização do amor.” É por isto que ele ensina os movimentos do kinomichi, mas também uma visão da vida. Aliás, suas aulas começam sempre por uma pequena “lição de vida”. Um dia ele destaca a importância do pé que “se apóia na terra para que o corpo possa se elevar em direção ao céu”. Outro dia, ele imita o andar de um velho, depois o de um jovem desfilando para fazer entender que a energia pode ser vista! Outro ainda, ele explica que, contrariamente ao que afirma a tradição nipônica, o “hara” (ponto situado abaixo do umbigo) não é, para ele, o centro da energia, pois na verdade esta circula “da terra ao céu”. Talentoso como ator, mestre Noro também pratica o humor. Assim o grupo se une em torno do riso e os estressados relaxam. “Pelo riso, ele nos obriga a relaxar os maxilares. E então abordamos em bem melhores condições o primeiro exercício de contato”.

COMO SE VESTIR?

A roupa especial de kinomichi é inspirada na roupa dos samurais. Para as primeiras aulas, vista uma camiseta e um jogging ou short, de preferência de cor branca.