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KINOMICHI – MASAMICHI NORO

Artigo publicado na revista Aïkido Magazine – dezembro 2003

Na Aïkikaï de Tóquio, Masamichi Noro, superdotado em Aïkido, torna-se rapidamente um dos uchi-deshi preferidos de Morihei Ueshiba, que não hesita em enviá-lo como encarregado oficial da Aïkikaï na Europa e na África apesar de sua idade jovem. Masamichi Noro chega na França em 1961, com apenas 25 anos. Sucedendo assim a Tadashi Abe, ele abrirá por volta de 250 clubes de Aïkido e verá a chegada de Tamura Nobuyoshi e de Nakazono Mutsuro na França. Fazendo pesquisas constantes, ele cria sua própria rota em 1979, segundo as bases de exercícios feitos para se recuperar de um grave acidente do qual foi vítima em 1961: o Kinomichi, literalmente Via da Energia.
Mestre Noro

Em 2001, o grupo Norokinomichi entrou para a FFAAA (Federação Francesa de Aïkido, Aïkibudo e Afinidades) como disciplina afim. No seu Korindo dojo da avenida de Batignolles, Masamichi Noro nos recebe para evocar esse caminho diferente e sua prática, sem nunca perder este sorriso caloroso que todos os que foram seus alunos conhecem bem.

O MOVIMENTO UNIVERSAL DO KI

Sensei, o senhor iniciou a prática pelo Kendo, e mais tarde pelo Aïkido. Quais foram as suas motivações?

Primeiro, devo dizer que quando era criança estava sempre doente, era horrível. Freqüentemente devia ficar na cama. Por volta de 8 ou 9 anos, era um menino fraco. No final da última guerra muitos oficiais viram-se sem trabalho. Um desses oficiais que era nosso amigo, disse assim que me viu: “Não é possível um menino fraco assim. Ele deve fazer exercícios físicos.” Meu pai ficou contente, vendo que esse oficial faria de mim uma pessoa razoável. O oficial disse: “Sei fazer muitas coisas, sou kendoka . Vou ensiná-lo o Kendo. Ele tem que praticar o Kendo.”

Eu tinha 10 anos. Ele também disse: “Eu encontrei o Mestre Ueshiba. Ele tem técnicas magníficas.” O nome do Aïkido já estava em minha cabeça, mas como ele era especialista em Kendo, eu fiz Kendo. Meu pai ficou muito contente, pois viu que pouco a pouco eu me desenvolvia. Em seguida eu comecei a me interessar pelo corpo, pelo movimento do corpo. Mas nessa época meus pais queriam que eu me tornasse médico, era a principal preocupação deles. Minha família morava no norte do Japão. Fui mandado para o colégio em Tóquio. Durante os primeiros anos estudei com afinco, para agradar aos meus pais. Mas um dia, quando vi o Judô, quis fazê-lo. Entrei para o dojo da polícia, rapidamente tornei-me primeiro dan e terminei entrando para a faculdade de medicina.

Foi nessa época que o senhor encontrou Morihei Ueshiba.

Não aceitava passar meu tempo estudando. Eu falei com meu tio, que era um amigo de escola de Kisshomaru Ueshiba, o filho do fundador do Aïkido, sobre o qual havia ouvido falar 10 anos antes. Ele me respondeu: “Se entrar para medicina, apresento-o ao grande mestre de Aïkido e você poderá praticar. Levarei você ao dojo do fundador.” Imediatamente comecei a estudar, passei em segundo lugar no concurso para entrar para a faculdade. Foi em 1955, meu tio me levou ao dojo de Morihei Ueshiba. Comecei a prática logo, na primeira aula da manhã. Kishomaru me pegou e me fez shiho nage … eu era judoca há muitos anos, nunca havia pensado que alguém pudesse me jogar assim. Não era possível. Fiquei impressionado com essa técnica. Mestre Ueshiba não tinha tido pena de mim, meu punho ficou muito dolorido. Dois dias depois, Morihei Ueshiba estava lá. Eu vi, compreendi, era magnífico! Um homem velho como ele, fazendo tais movimentos, se deslocando notavelmente, com seus cabelos e barba brancos, era incrível. Eu me perguntei onde estava. Desde as primeiras aulas decidi me instalar como deshi . Vim com o meu futon, cumprimentei o mestre Ueshiba que me apresentou e depois eu instalei-me. Nessa época já havia, entre outros, Tamura sensei, Arikawa sensei, Tada sensei, como externos. Nós não éramos muitos, às vezes somente 5 ou 6 praticantes. Na época, Kishomaru Ueshiba era empregado de uma empresa para sustentar a família dele e também a de O sensei, seu pai. A vida não era fácil. Eles viviam todos com muito pouco, mas tudo se passava muito bem. Então tomei minha decisão. Eu ia fazer três aulas quotidianas, uma delas dirigida por Osawa sensei. Estava realmente entusiasmado.

Em quê o encontro com Morihei Ueshiba foi determinante para o senhor?

O contato com O sensei é inexplicável. Tudo aconteceu de forma muito simples. Ele estava lá, fui levado só por sua presença, por tudo o que emanava dele. O sensei nos dizia: “Minha vida é a realização do amor.” Desde este instante quis me tornar logo o “chuchu” dele. Eu me dizia que devia me entrosar bem com ele para progredir o mais rápido possível. Para que ele me desse muito. Um ano depois, graças ao meu trabalho, eu era um dos alunos mais próximos dele. Uma manhã O sensei me disse: “Noro, você está livre?”. Respondi afirmativamente e ele continuou: “Nós vamos a Iwama.” Peguei nossas bagagens e fomos para Iwama. Foi meu primeiro encontro com esse lugar, mítico hoje em dia.

Em Iwama havia Saïto e Isoyam sensei, entre outros. Eu dormia no dojo . Às 5:30h s O sensei começava o dia com a oração ante de passar aos exercícios. Um dia ele disse: “Noro, venha, pegue um boken .” Eu me dirigi a ele muito emocionado com meu boken . De repente ele bateu no meu boken … Meu corpo ficou eletrificado, eu larguei o boken . Ele fez uma cara de pena dizendo: “Noro, isto não está bom.” Ele me disse: ” Jo , agora.” Eu pensei que ele ia me bater como com o boken . Estava esperando. Na mesma hora ele bateu com o jo . Aconteceu o contrário. Ele deve ter sentido minha energia e me disse: “Noro, você vai fazer jo …” Mas atenção, meu boken também não é mal! Apesar disso, desde então tenho alguns complexos em relação ao boken . Ele quis que eu continuasse o exercício depois da aula. Ele me mostrou bambus gigantes no jardim e disse: “Eis seu parceiro.” Ele me mostrou um movimento técnico e disse: “Faça isso!” Eu comecei, mas no Japão não se pára a prática antes que o mestre diga para fazê-lo. Ele estava sentado numa mesa me olhando. O tempo passava e eu fazia o movimento. Não sei quanto tempo fiz, mas foi até a exaustão.

Aproximei-me dele engatinhando para pedir perdão por parar. Mas na verdade, ele estava dormindo!

Normalmente era Tada sensei e eu que devíamos ir para a Europa para suceder Tadashi Abe em suas funções depois da sua volta para o Japão. Nós fomos escolhidos para a Europa e para a África. Foi O sensei que decidiu a partir de uma proposta de Kishomaru. Foi assim que cheguei em Marselha em 1961, depois de uma longa travessia de navio. Primeiro me instalei em Cannes. Estava sozinho, Tada tinha decidido ficar no Japão. Eu tinha que mudar de país a cada três meses, pois não tinha visto, Itália, Alemanha, África. Fiquei 8 anos sem poder voltar ao Japão. Não era possível, pois custava muito caro e eu não tinha condições, apesar das 250 seções que tinha conseguido abrir. No final de 1968 voltei ao Japão pois meu pai estava muito doente. Assim que cheguei fui diretamente ao Aïkikaï, claro. Fiquei para dormir e assisti à aula de O sensei no novo dojo, onde agora havia muitos praticantes. Ele estava muito idoso, sua memória tinha ficado muito fraca. Estava em seiza entre os outros, O sensei se aproximou de mim e perguntou: “Quem é você?” “O sensei, eu sou Noro.” Ele partiu e voltou: “De onde você vem?” ” Da Europa, O sensei.” Ele me perguntou novamente umas 4 ou 5 vezes. Então Kishomanru se aproximou dele e disse que eu estava chegando de Paris. De repente ele reagiu e começou a pular de alegria dizendo: “Noro está aqui, Noro está aqui!” Eu vi que todo mundo se perguntava o que estava acontecendo com ele. Foi no final da vida dele. Pouco tempo depois ele faleceu.

Imagino que o processo de criação do Kinomichi tenha sido bastante longo. Quando ele se tornou evidente ao para o senhor?

Primeiro houve esse primeiro choque para mim. Um acidente de carro em 1966, quando fui dado por morto. A velocidade me atraía. Lembro-me bem que quando voltei a mim dois ou três alunos meus estavam do meu lado, olhando para mim. Eles me disseram: “O senhor sofreu um acidente de carro.” Todo mundo estava muito preocupado. Estava deitado em minha cama e logo mexi um pé e depois o outro. Eu podia fazer alguns movimentos. A mão direita não tinha problema, a mão esquerda estava paralisada, sem nenhuma sensação. Eu pedi para falar com um médico, a quem perguntei porquê minha mão não reagia. Ele me respondeu: “Daqui a alguns meses ela vai voltar ao normal.” Fiquei aliviado. Tinha mantido a possibilidade de mexer. Mas durante esses momentos de sofrimento, me fiz muitas perguntas: O que é essa vida? Quem sou eu? Disse ao médico que queria sair da clínica em uma semana, que queria fazer exercícios para desenvolver novamente meu corpo. Ele não queria me liberar antes de um mês. Não era possível. Mas como eu fazia besteiras atrás de besteiras, ele acabou pedindo ao meu aluno para me levar para outro lugar. Eu comecei os exercícios e pedi a Asaï que estava na Alemanha para vir me encontrar. Eu disse a ele: “Asaï, a partir de agora, exercícios para os dois.”

Dez dias depois eu começava a fazer os exercícios, mas meu corpo não me seguia. Eu tinha cicatrizes em todo lugar. O choque tinha sido muito duro, mas eu tinha vontade de escapar. Eu treinava sem parar, e ao mesmo tempo me questionava, sobre minha vida, esta energia em mim. O quê sou eu? Eu tinha uma energia extraordinária. Eu sentia a chama em mim. Eu queria exceder meus limites. Eu só pensava em termos de energia. Lembrava-me das palavras de O sensei: “Homem, céu, terra.” Ele sempre dizia: “É círculo, quadrado e triângulo. O círculo é o universo inteiro, o quadrado é a terra, o triângulo é o homem. A harmonização desses elementos é o ki .” Todos esses exercícios eu fazia a partir do centro vital, o hara . É o motor de energia, de tudo. É esta força que está em contato com o céu e a terra. Eu me apoderava o tempo todo das palavras de Morihei Ueshiba.

Um dia, muitos anos depois de meu acidente, estava andando na floresta, olhando para uma árvore e pensei em O sensei, que com sua mão realizava a harmonia entre a árvore e ele mesmo. Eu me interroguei. Como a árvore realiza sua energia de vida? Ela tira sua força da terra pelas raízes, ela passa pelo tronco para se elevar ao céu criando um espaço vital. É isto, é disto que preciso, eu me disse. Eu procurava em todo lugar como poderia realizar o equilíbrio no meu corpo, e isto se tornava cada vez mais claro. Se nós realizamos a energia entre céu e terra. Se meu corpo energia é harmonizado com o sopro da terra. Não é simples, mas está aí a nossa força de vida. Um dia Graf Von Durckheim, que considerava meu amigo e do qual eu seguia aulas, me disse: “Qual é a sua idéia?” Eu respondi que o hara é o instrumento para realizar a energia. O homem deve utilizar sua energia vital centrada no hara . Para se realizar, ele deve entrar em harmonia com esta energia, a força da terra com a força do céu. Para viver, nossa força deve permanecer na terra. Se nós elevamos esta força para o céu, ele nos manda de volta sua força de equilíbrio. A força do céu passa por nosso corpo em direção à terra; as duas forças se encontram no centro do nosso corpo. Eu estava convencido que enquanto vivemos devemos fazer exercícios de terra-céu para manter esta energia. Em Aïkido, também falamos de centro vital. Na verdade, eu tinha chegado a uma realização pessoal que às vezes era contrária à prática de meu mestre Morihei Ueshiba. Nesse momento achei que deveria abandonar o Aïkido. Não era fácil assumir. Falei com meus próximos. Disse-lhes que com o Aïkido eu tinha conhecido o êxito, mas agora tinha chegado o momento de criar meu próprio caminho. O que eu chamava de Kinomichi, o caminho da energia. A vida seria menos fácil, menos confortável…. Poderia ter continuado a ensinar Aïkido, mas teria que me enganar a mim mesmo. Inimaginável. Decidindo me lançar nesse caminho, eu corria grandes riscos, principalmente o de não ser seguido por meus alunos. Havia muitas razões objetivas pelas quais podia me enganar. Muitas idéias, às vezes geniais, nunca tiveram êxito. Eu poderia me ver na impossibilidade de alimentar minha família e até ter que mendigar… Perguntei a Odyle, minha esposa, o que ela pensava do Kinomichi. Ela me respondeu: “Kinomichi… Kinomichi… É bom.” Eis como anunciei a criação de meu caminho. Foi em 1979. Treze anos depois de meu acidente eu cheguei à realização de meu próprio caminho. Durante esses anos tinha experimentado um certo número de técnicas de fisioterapia para reencontrar meu equilíbrio. O Kinomichi é fundado sobre o conjunto dessa experiência energética. Um mês depois, todos os meus instrutores, exceto dois ou três, pediram demissão. Eu perdi a metade dos meus hakama , estava decepcionado, triste. Neste meio tempo tinha tido discussões bastante duras com Kishomaru Ueshiba sobre a nova organização do meu ensinamento, mas nós nos reconciliamos definitivamente e finalmente em 1986. Hoje sou muito feliz que o Doshu Moriteru Ueshiba tenha aceito o convite da FFAAA para vir dirigir um estágio em Paris em 2004. Eu tinha prevenido minha família que isto poderia acontecer. Agora era preciso reconstruir, sobre boas bases, lentamente, com o tempo.

Já faz muito tempo. Todas as técnicas, como shiho nage , por exemplo, deviam ser eficazes. Mas eu nunca gostei da confrontação. Sempre pensei nas palavras revolucionárias de Morihei Ueshiba: “A técnica está a serviço do amor.” No fundo de mim mesmo não gosto da confrontação, então chegou a hora de eliminar qualquer confrontação. Mas apesar disso, se alguém muito forte, fisicamente bem desenvolvido se apresenta com sua força, eu digo: venha, me empurre… Então eu passo minha técnica para mostrar que ainda estou fazendo pesquisa.

O senhor preconiza um trabalho particular sobre o ki?

Muitos praticantes de artes marciais falam de ki , mas eles utilizam este ki para se confrontarem. Um dia eu vi dois alunos meus que estavam praticando como em um confronto. No exercício eles estavam muito tensos. Um disse: “Você tem ki .” Então eu disse a eles que aquilo não era ki . O ki é o sopro universal, é um sopro criativo. O que é destrutivo, não é ki . O ki é o amor e o amor deve ser harmonização. A energia é o encontro homem-terra-céu. Alguém que lança seu parceiro muito longe num confronto, isto não é ki . Nesses momentos eu digo a mim mesmo que tudo deve mudar. Nós devemos mudar. Qual é o sentido dessa vida moderna que estabelece essa relação entre os seres quando vejo o mundo de hoje com todos esses conflitos? A verdadeira força está naquele que cria uma relação de amor entre os homens. Entre o homem e a natureza, entre o homem e o universo. É esta energia que o Kinomichi quer desenvolver com seus exercícios. Mas apesar disso, alguém pode conseguir, endurecer e quebrar esta harmonia.

Quais são os princípios fundamentais que determinam o Kinomichi?

O encontro, a comunicação, o amor, a paz. Eu digo sempre em minhas aulas: quando começamos a educação na infância, tudo é desconfiança. Muita desconfiança. Atenção, cuidado! Quem lhe bateu na escola? Fulano, então vá bater nele. Que nota? Quem é forte? Quem é fraco? Mais tarde na vida ativa a rivalidade se instala. É necessário ser o melhor. O mais forte, o mais bonito, etc. Eu digo que a energia do Kinomichi não é isto. É o espírito de abertura, o contato pelo exercício. Este exercício, é como otimizar esta energia que passa pela terra e se eleva atravessando o corpo. Claro que o Kinomichi não é o único a utilizar esse princípio. Na origem da dança esse princípio já dominava. Tanto nas danças primitivas quanto nas danças modernas a energia se eleva dos pés em direção à cabeça, da terra para o céu. Hoje, infelizmente, não existem mais disciplinas que trabalhem esse princípio terra-céu.

O que se tornou a relação Toriuké como os praticantes do Aïkido a conhecem?

O Kinomichi é a arte do movimento. É no movimento que se exprime esta energia da qual falamos. Tori está no centro dessa espiral, e uké , como um átomo, está em gravitação ao redor desse centro. O espírito está nesse movimento de harmonização entre tori e o ataque de uké . É a isto que se deve chegar, fazer desaparecer o desejo de dominação pela confrontação. Tori e uké são a harmonização. Deve ser um encontro que crie o sopro da harmonização.

As técnicas de base do Aïkido são encontradas no Kinomichi?

Sim. Nós trabalhamos todas as técnicas do Aïkido. Porque eu só conheço o Aïkido, nada mais. Mas a primeira coisa a fazer… Por exemplo shiho nage . Nage , projeção. A primeira idéia que vem à cabeça é lançar. Ikkyo , outro exemplo, é imobilização. Estes dois são exemplos de um início de confrontação nos espíritos. Então eu suprimi todos os nage e todas as imobilizações. A mesma coisa para o que diz respeito aos ataques. Eu apaguei o espírito guerreiro do ataque e, por conseguinte, a forma combativa das defesas. As técnicas de Aïkido são utilizadas como vetor de comunicação, de harmonização no espírito definido por O sensei. O aspecto exterior de shiho nage permanece shiho nage , mas no interior da forma só é harmonia. Foi por isto que o chamei de primeiro movimento do céu. E ikkyo , primeiro movimento da terra.

O toque, em sua prática, parece ser um ato libertador.

Claro. Mas atenção! O toque também pode ser uma armadilha. No Kinomichi o toque é um fator de comunicação dividida. Deve-se fazer uma distinção, no toque os dois sopros não devem se afrontar, senão é a destruição.

O senhor também adaptou o trabalho com armas do Aïkido à sua prática?

Isso. As armas do Aïkido estão na prática do Kinomichi. A arma deve ser um meio de desenvolver o ki , como nós definimos antes, principalmente o boken e o jo . Foi o primeiro Xógum, Tokugawa, que declarou no século XVII: “Agora chega de guerra, o Japão deve reencontrar a paz.” Foi na sua época que o sabre do samurai evoluiu para ser um instrumento a serviço da paz. A arma não devia mais servir para matar, mas ao contrário, para favorecer o equilíbrio interior se tornando um símbolo de pureza como é vivido hoje. É com este espírito que o samurai devia usar sua arma. Foi também nesse momento que o bujutsu (técnica de guerra) evoluiu em direção ao bugeï (arte da paz). A prática das armas tinha se tornado uma prática na alegria de viver. Foi nesse espírito que ela foi integrada ao Kinomichi. Mais uma vez, o caminho que Morihei Ueshiba nos mostrou.

Para quem se dirige a prática do Kinomichi?

Para ninguém em particular, para todo mundo, para crianças tanto quanto para adultos até uma idade avançada. Eu tenho até uma praticante com 80 anos, ela é magnífica, extraordinária. Claro que é possível iniciar em qualquer idade. O dever dos antigos é de se abrirem aos iniciantes. Esta comunicação está implicitamente inscrita no Kinomichi.

De certa maneira o Kinomichi é a obra da sua vida, como o senhor o vê hoje?

Já faz quase 25 anos que desenvolvemos nossa arte. Eu sou muito entusiasmado. Esse exercício me parece necessário para a humanidade. Nós nos desenvolvemos em muitos países, na Europa e no mundo inteiro. No próximo mês estarei no México, onde tenho muitos alunos. Nós podemos criar uma outra dimensão na relação humana. Nós já somos numerosos nessa prática. Não sei exatamente em qual estágio que nós chegamos, mas o Kinomichi tem cada vez mais adeptos.

“Prece do corpo – O Kinomichi”. Entrevista com o Mestre Noro feita por Pierre Willequet. Revista Sources, agosto-setembro de 1989.

O Oriente e o Ocidente se observam às vezes sem se compreender. A abordagem do corpo e de seus sentidos é um dos caminhos que alguns, de forma decisivamente afortunada, procuram para (re)aproximar aqueles que transitam por cada um desses dois mundos. O Mestre Noro é um desses destinados a nos facilitar o caminho. Depois de ter passado por uma formação estritamente tradicional no Japão, ele passou mais de vinte e cinco anos de sua vida na França. Durante este tempo ele se colocou à escuta de nossa forma de pensar, de nossos corpos, de nossas dificuldades e soube se adaptar a tudo isso sem nada perder de sua especificidade. Ele criou seu próprio método, o Kinomichi, e através dele nos propõe despertar nossas memórias adormecidas: as do corpo, do gesto preciso, da calma e do silêncio. Ele nos propõe descobrir que a integração lenta da aparente contradição entre firmeza e leveza, velocidade e suavidade, força e paz se constitui talvez um dos componentes do espírito japonês. E a reconhecer, enfim, esta doçura recolhida e esta vitalidade afetuosa que se fundem num movimento, num contato e num ato de criação.

Mestre Noro, o senhor poderia nos contar como nasceu o seu método, o Kinomichi?

Este método nasceu em 1979 e é um resultado de um longa elaboração. Eu estudei continuamente, mas a fonte primordial veio de meu Mestre, o Mestre Ueshiba, com quem eu convivi durante muitos anos. Na época, muitos dos grandes Mestres de outras práticas falavam dele como um homem de uma natureza grandiosa; mas, do meu ponto de vista, posso dizer que sempre reconheci nele uma grande simplicidade. Um pequeno acontecimento foi, ao que me parece, a base da criação do meu método: um certo dia em que pratiquei com um antigo colega meu, que atualmente é da arte marcial, ao final do treino, ele me disse: “Muito obrigado”. Eu lhe perguntei por que ele havia me agradecido e ele me respondeu: “porque estou me sentindo bem! Eu me sinto mais aberto e meu corpo está revitalizado!” Aquilo foi um choque pra mim porque, até aquele momento, eu não havia utilizado mais do que as técnicas que, dentro de um propósito antagônico, conduz ao medo e à desconfiança. Claro que o ensino sempre foi uma questão de amor, de compreensão do universo, etc… mas, na prática isso nunca foi uma verdade. Estava subentendido que se nós chegássemos até o extremo deste medo, deste afrontamento, nós poderíamos reconhecer o amor e até mesmo a alegria e a paz. Mas eu sentia que ia me tornando cada vez mais agressivo, desconfiado, amedrontado… E aquele homem que lá estava me havia dito “Muito obrigado!”. E ele foi sincero ao ponto de me propor que nos encontrássemos regularmente para trabalharmos junto. Aquilo se deu também por uma contribuição da técnica, mas resultou em algo mais criativo, e eu compreendi que esta prática poderia ser utilizada com a finalidade de abertura, de confiança, em que os parceiros poderiam simplesmente dizer “obrigado” uns aos outros. Outro fato que também marcou a criação do meu método foi um encontro que eu tive em 1971. Até então, meu trabalho era muito técnico e eficaz, e certo dia, em que eu me sentia muito cansado, duas amigas minhas francesas cinesioterapeutas, a senhorita De Noiret e a senhorita Foix, me disseram: “Seu corpo está fatigado… Venha conosco”. Eu aceitei o convite delas, mas eu estava muito desconfiado, como eu já lhes disse, e igualmente fechado, tanto físico como espiritualmente. Elas então deram sequência aos exercícios que tinham por base o alongamento de braços, pernas, nuca…etc, e minha primeira reação foi de recusa. Eu não conseguia recebê-los… Mas, depois de algum tempo, eu disse a mim mesmo: “Que estranho, apesar desta desconfiança, alguma coisa em mim está se transformando, interiormente me sinto diferente”.

Eu comecei a participar do que elas haviam me proposto e, uma hora depois, eu estava como que transfigurado, bem tanto física como mentalmente. Para mim, aquilo foi um acontecimento impressionante e, a partir daquele momento, meu corpo recusou a prática que um mês antes eu desenvolvia. Eu saí de lá em um estado extraordinário, e naquele momento eu também pude dizer “Obrigado!”. Pareceu-me que aquela palavra então poderia ser perfeitamente associada à palavra amor a que meu Mestre se referia com frequência. Claro que estes são alguns fatores dentre outros, e eu não posso lhes dizer exatamente: “Eis aqui o que me permitiu criar o Kinomichi.” Um conjunto de fatores foi que me ajudou a criar este método.

O senhor nos contou que sofreu um acidente automobilístico decisivo nos anos sessenta, e que este acidente havia modificado drasticamente algo em sua vida e havia lhe permitido compreender de outra forma seu próprio trabalho…

Sim, eu entendi que de um dia para o outro nós podemos perder todo o domínio e a força… e ficar sem nada. Aquilo foi talvez a morte do meu orgulho. Eu realmente acreditava que eu tinha me tornado um homem sem futuro, que eu não poderia mais trabalhar na minha arte; meu orgulho se estilhaçou. De fato aquele foi o primeiro passo para uma mudança. No momento em que eu comecei a aceitar aquele estado de perda total, eu pude me tornar verdadeiramente criativo. Eu trabalhei muito mais depois do acidente do que antes, por exemplo. Foi preciso que eu redescobrisse através do trabalho o “Noro” que estava perdido; e assim, certo dia olhei para mim mesmo e me disse: “Mas o que é isso?” E eu aceitei deixar que muitas coisas fossem por terra. Dürckheim diria talvez que eu estava deixando morrer meu eu pequeno, e era isso mesmo! Naquele momento eu senti a força da vida, e o Kinomichi foi criado a partir deste contexto. Eu pude realmente me abrir a todos os tipos de técnicas que anteriormente eu desprezava por completo. Eu trabalhei especialmente com a senhorita Le Dr. Ehrenfield, que muito me ajudou, e então eu pude admitir a influência de outras técnicas ocidentais sobre o corpo. Todas essas pessoas que se dispuseram a encontrar um lugar entre o corpo e o espírito, Gerda Alexander, Feldenkrais… elas me despertavam muito interesse e eu me dediquei a trabalhar em cima disso tudo.

Em relação a este último acontecimento em sua trajetória, o que o senhor poderia dizer às pessoas que nunca praticaram seu método antes, e ao que ele nos conduz?

Ah, é muito difícil responder a esta questão, porque aqui no Ocidente, há vários séculos existe um fundamento nas pesquisas sobre a força e a eficácia (que de outro lado existe também nos ensinamentos espirituais) que é o dualismo, a oposição, o bem e o mal, o branco e o preto, bem separados. E esta base converge atualmente a resultados bastante contrários aos das pesquisas desenvolvidas pelo Kinomichi. Por exemplo, os esportistas medem inocentemente sua força levando em consideração sua capacidade de se contrair! Eu digo que a força nasce da total abertura e da descontração. Eu observei muito os alunos, e sabe –já faz vinte e sete anos que estou na França –, num primeiro momento, quando eles querem fazer um movimento, o corpo deles se fecha como se houvesse uma carapaça de tartaruga sobre as costas; o espírito também fica totalmente fechado e supostamente “concentrado”! Eles acreditam então que a concentração é um se fechar. Em seguida, de forma agressiva, toda esta força explode para o exterior. Eu lhes digo não! O princípio da ação parte de uma descontração plena. Abertura total, confiança. Se você observar um pouco mais de perto esta não-abertura, verá o quanto o estado em que nos encontramos é de angústia, que nosso coração está oprimido e que tudo está bloqueado. Atrás deste se fechar há uma barragem que cede, e que permite que nos liberemos, como numa crise ou através de um grito, em que uma energia tremenda e verdadeiramente impressionante escapa. É a destruição total da pessoa. Do ponto de vista da respiração, igualmente acontece a mesma coisa: “Vamos, inspire profundamente! Vamos”. Em seguida vem a deflagração da expiração, assim como uma explosão de energia. Na medicina é a mesma coisa. Eu não sou médico, claro, e por isso não posso afirmar categoricamente, mas há de novo este ponto de vista dualista diante da doença e o tratamento dela: há uma doença, um micróbio, e em vez de pensar primeiro no equilíbrio do todo e fortalecer a pessoa, nós dizemos que é preciso matar o micróbio com esse ou aquele medicamento; nós nos desvencilhamos daquilo que está doente. Talvez possamos imaginar a realidade de um modo um pouco diferente… É plausível pensar que se nosso corpo está em equilíbrio, ele libera uma força de vida extraordinária, potente como a força vital da qual eu lhes falo o tempo todo. Neste momento, talvez a doença pudesse desaparecer por si só? É uma questão, e eu não tenho toda a autoridade para afirmar, mas é também uma intuição. Nós temos em nós mesmos a capacidade de desenvolver uma força de purificação. O homem é ao mesmo tempo muito potente e extremamente frágil, e nós devemos nos dar conta dessa fragilidade. Então, diante da doença, não se deve ter, como reação imediata, o desejo de matar, mas sim o de se purificar. A base do Kinomichi talvez seja esta. Se continuarmos como estamos agora, em algumas décadas nós caminharemos para a autodestruição do homem. Aliás, nós já sabemos disso. Eu também há muito tempo vivi e trabalhei na perspectiva do dualismo e do afrontamento, mas fui tocado pela força de vida que é o amor e a paz, e eu não posso mais voltar atrás. Muita gente me trata como um utópico! E atualmente eu continuo pesquisando, e não deixarei de continuar neste caminho. Esta perfeição é infinita, eu não deixarei jamais de persegui-la, e assim irei avançar em direção ao infinito.

O Ki é criação

Em relação ao conceito de Ki, o senhor poderia nos dizer o entendimento que tem dele e qual o significado que ele talvez tenha para nós ocidentais?

Nós não sabemos em que época surgiu esta palavra, Ki. Há uma origem chinesa e sabe-se que, depois de milênios, os chineses fizeram numerosas pesquisas sobre a longevidade da vida e da imortalidade. Bem antes de Jesus Cristo, na alquimia chinesa e entre os taoístas, encontramos essa busca pela imortalidade. O saquê, por exemplo, originalmente é tido como um elixir que promove a longevidade. E então, a origem da palavra Ki está intimamente ligada à esta busca. Há mais ou menos 3.000 anos, os anciãos chineses haviam compreendido muito bem que duas coisas faziam parte de nossa vida, o espírito e a matéria, ou ainda, o céu e a terra, o pai e a mãe. E eles perceberam também que o corpo e o espírito deveriam estar bem harmonizados, que esta era a essência da paz. No momento em que o desequilíbrio se instala entre o corpo e o espírito, a doença chega. No momento em que o corpo e o espírito se separam, se dá a morte. Entre os dois existe ainda uma terceira força que é primordial. Esta é que é preciso buscar, e esta é a origem da palavra Ki.

A palavra Arroz tem igualmente uma origem espiritual: para que o arroz nasça, é preciso água, muita água, e também a força da luz e do calor, do sol e, assim, do fogo. E esses dois elementos em conjunto dão origem ao arroz. O arroz significa, então, a união da força do fogo e da água. Ou ainda, do céu e da terra.

Mas a palavra Kami, que significa Deus, comporta igualmente estes dois elementos, não?

Sim! Ka é Fogo, e Mi é água. E a palavra Ki significa originalmente a manifestação do arroz, ou, para mim, a manifestação de Deus. Aqui, quando falamos de Deus, de imediato nos ocorre uma certa imagem, mas, para nós japoneses, esta associação imediata a uma imagem não existe. Ki significa reunir o corpo e o espírito, é a união dos opostos, a unidade.

Podemos chegar a sentir o Ki nos atravessando, de uma maneira de fato concreta e real?

Certamente… Mas, antes de tudo, nós devemos compreender que nossas células, nosso espírito, nosso corpo, todo nosso ser tende a esta unificação de maneira espontânea, sem necessidade de se ressentir ou de pensar. A cada instante, o universo, nosso ser se dirigem e tendem à unidade. Então, nós podemos considerar que por outro lado existe também a destruição! Mas, a partir deste momento, nós entramos no dualismo. Na prática, eu utilizo toda minha força e toda minha determinação em direção à unificação, à harmonização. Há uma conexão muito forte que nós podemos experimentar a partir da respiração. Então, se você está contente, feliz, você expira e solta seu sopro, e pelo sopro, você cria uma dimensão, um espaço cada vez maior em torno e dentro de si mesmo. E aí você pode desenvolver esta consciência da expiração. Mas a inspiração deve ser passiva. Uma expiração plena virá a partir dela mesma, livremente e no momento certo. Para viver, eu devo desenvolver esta consciência da expiração a partir deste princípio, de se criar um espaço. É nisso que eu penso, a isso é que eu me inclino, é a criação; ela me torna consciente, e eu não tenho necessidade de pensar de outra forma, porque isso se dá livremente, na proporção em que eu posso viver plenamente meu ímpeto criativo, expansivo. Para mim, o Ki é criação. Descobrir e habitar o maior espaço possível pela consciência de sua expiração, é este o trabalho do Ki. Mas, atualmente, por conta do medo, do estresse, estão cada vez mais aprimoradas as forças que nos fecham: quando você tem medo, ou quando você é brutalmente agarrado, o que acontece? Você inspira de forma súbita e se infla interiormente. A mesma coisa acontece quando estamos tristes, deprimidos. A inspiração ganha uma importância enorme. É um erro considerável trabalhar apenas sobre a inspiração como se ela fosse a única possibilidade do desenvolvimento humano. Veja só todas essas pessoas que vão ao campo ou diante do mar e que dizem a seus filhos: “Vamos! Inspirem! Encham os pulmões de ar puro!” Não! É um erro monstruoso! É um antigo conceito que considera nossos corpos uma máquina que tem necessidade de tais ou quais elementos para funcionar. É falso. Mas há um tanto de pessoas que o aceitam prontamente. Está totalmente ligado à educação…

Eu não estou querendo dizer que a expiração é algo bom e a inspiração algo ruim; o que eu quero que entendam é que na medida em que posso viver e criar uma expiração plena, total e criativa, a inspiração que a segue será também radicalmente diferenciada e criativa. Nossa vida é um sopro. Inconscientemente, a inspiração nos sobrepõe, ela é a lei da natureza. Mas se eu me detenho apenas na inspiração, isso será destrutivo, porque considero aquilo que na natureza é passivo como algo ativo. Então eu vou contra a lei da natureza.

“Eu busco o movimento que unifica”.

No seu curso, o senhor nos diz sempre que, para ficarmos concentrados, não devemos nos esforçar para tanto! Como o senhor entende este ensinamento?

Esta palavra “concentração” é uma armadilha. A aparência é o espelho de nosso estado interior. Se alguém está supostamente concentado, notamos, na realidade, que muitas vezes sua aparência é quase caricatural, e completamente imóvel. É muito, muito esquisito. Buda tem sempre um meio sorriso na sua atitude meditativa. É um estado de equilíbrio, de unidade que nela se expressa. Neste exercício de se sentar igualmente em silêncio, muitas pessoas parecem entrar numa caixa, nesta cilada da palavra meditação ou concentração. No Ocidente, talvez isto esteja bastante associado à cultura. Nós associamos normalmente o fato de estar concentrado a uma atitude de se fechar; observe “O Pensador” de Rodin e a atitude que ele manifesta! Será que esta maneira de ser conduz ao desenvolvimento humano? Talvez… Mas meu caminho é diferente. A importância primordial que se dá ao pensamento, aqui, acentua de fato este estado. E esta visão das coisas tem um impacto enorme sobre os ocidentais. É por isso que eu digo sempre aos meus alunos: “Não se concentrem!” Para mim, a verdadeira concentração é a unificação do corpo e do espírito, mas muitas pessoas utilizam esta palavra de forma inversa, no sentido de se dobrar sobre si mesmo. Eu noto também que normalmente as pessoas que praticam os exercícios espirituais do Oriente costumam fazer caretas e caricaturar os gestos e as atitudes dos grandes sábios do Extremo Oriente! Um deles certa vez nos disse: “Um riacho pouco profundo é muito agitado na superfície, enquanto o rio profundo se mantém calmo e tranquilo”… Mas, aqui, as pessoas se sentem obrigadas a deixar a barba crescer e adotar maneiras e gestos totalmente emprestados, é ridículo. É desta imagem de concentração que eu quero me livrar, e é assim que eu a abordo nos meus cursos. Quando as pessoas do Centro chegam com esta mentalidade, eu lhes puxo a orelha! Para mim, o sorriso, o sorriso em conjunto é uma prece. Eu tento transmitir esta importância da abertura e do sorriso, mas muitos se recusam a esta atitude durante a prática, no contato real pele com pele, por conta de uma grande falta de confiança.

O senhor disse certa vez que nós podemos efetivamente ver o Kinomichi como uma prece…

A prece é a unificação do homem com o universo. É a este estado que me refiro. Por que nós teríamos recebido estes corpos se não para utilizá-los nos movimentos? E o movimento, para quê pode ser utilizado? Para a unificação, a harmonização entre o homem, a terra e o céu… o universo. Mesmo enquanto dormimos, nosso corpo se mexe muito! Mas, por quê? Para nos unificar. Mesmo inconscientemente nosso corpo busca a unificação. Infelizmente, o gesto e o movimento, e por outro lado a respiração, podem ser utilizados com fins de destruição. Eu busco o movimento que unifica. Céu, terra, homem, esta é a prece. Aqui, em nossas preces, antes de mais nada nós pensamos em pedir algo: “Conceda-me isto, conceda-me aquilo…” Mas, se observarmos os grandes sábios e os verdadeiros Mestres, eles nunca pedem nada! Nunca! Pelo contrário, a força é o dom. Mas antes de falar disso, é preciso praticar, e praticar ainda mais… Infelizmente, muitas pessoas pensam que depois de uma hora de prática elas podem sentir aonde tudo isso as conduz! É ridículo. Porque tudo em nós se transforma, e isso exige muito, muito tempo… E quando as pessoas se inscrevem no meu curso, antes eu lhes digo: “Daqui a a30 anos, vocês verão! Daqui a 50 anos, vocês verão!” O único caminho é o tempo. E não há mais nada a se fazer, é preciso seguir em frente!