As tentativas de definição do Kinomichi puderam começar porque ele não é: nem uma arte marcial, nem uma dança, nem uma técnica, nem uma terapia, nem uma secta, nem um método do extremo-oriente. Esse procedimento retórico se mostra necessário quando uma definição é difícil de ser explicitada e quando se impõe a necessidade de se estabelecer diferenças.

Por que não tentar partir da biografia do Mestre Noro para apreender o Kinomichi. Eu me refiro principalmente à biografia proposta no final do livro de Daniel Roumanoff : « La Pratique du Kinomichi® avec maître Noro » (A Prática do Kinomichi com mestre Noro). Estudar o criador a fim de assimilar a obra é um procedimento comum. Este é um caminho de descoberta do Kinomichi a partir do seu criador. Percorrendo a biografia de Mestre Noro, eu reconstruo uma viagem que leva ao Kinomichi. Qual foi a vida de um criador que define sua criação como : « Esta técnica nasceu do encontro entre o Oriente e o Ocidente » ou « É o fluxo da energia entre o céu e a terra ». Vamos explorar esta biografia que muito contribuiu para a criação do Kinomichi.

Sua adolescência se passa após o final da segunda guerra mundial. É um período de questionamento cultural, cujo aspecto mais visível para os ocidentais é a perda do estatuto de deus para o imperador. Não é admissível sonhar com samurais como se fazia há dez anos. O guerreiro tradicional japonês está morto. Durante o período Tokugawa, as artes maciais sofreram uma transformação que ultrapassou pela primeira vez sua própria natureza guerreira. O que são as artes marciais depois de Hiroshima e da ocupação pelos americanos em 1945? Masamichi Noro (na época ele ainda não é mestre) não podia ser totalmente impermeável a este choque cultural.

No colégio, Masamichi Noro pratica natação e judô, nos quais ele se destaca. O nadador só pensa em expirar e esvaziar seus pulmões. O reflexo de enchê-los sempre vem quando a boca e as narinas saem da água ; é uma prática de expiração constante com breves intervalos de inspiração. O tempo da inspiração, rápida, se impõe sozinha. A natação trabalha paradoxalmente a respiração para fora. É uma banalidade dizer que durante sua prática o nadador está em contato permanente com a água : sua parceira. A natação é um esporte de contato. Ele se destaca, então ele vai rápido ; então ele usa a força. Mas a natação exige uma dominação da força. A força deve se tornar fluida como a água (existe uma arte marcial de nadadores no Japão !). A força deve se harmonizar com os apoios da água. Já é um uso da força na flexibilidade e no contato com a parceira.

Ele também se destaca na prática do judô que é o caminho da flexibilidade. Aí também a força, o movimento e a energia só podem ser concebidos a partir da flexibilidade. Eu não conheço muito sobre o judô para falar sobre o assunto.

Recusando os projetos universitários propostos por seus pais: economia e medicina, ele toma a decisão de se tornar uchi-dechi do Mestre Ueshiba, o fundador do aikidô. Ele vive quotidianamente com seu mestre durante seis anos antes de ir para a Europa. O ensino que recebe não pode mais se resumir às correções orais durante as aulas. O ensino começa quando ele se levanta e termina quando vai dormir. Durante seis anos seu aprendizado de aikidô é uma imersão em uma tradição, uma estrutura. É um aprendizado do aprendizado.

Ele vive num meio masculino com regras duras. Não é preciso dizer que as mulheres não praticavam aikidô; era inconcebível. Os antigos do aikidô contam lendas sobre a dureza da prática: os desafios, os machucados, a resistência ; na ocasião Mestre Noro conta como ele brigou contra seguranças. Verdade ou afabulação, reteremos na memória a vontade de se forjar origens marciais, ou escapar delas.

Mesmo se Mestre Ueshiba fala de amor, Masamichi Noro não apreende seu ensinamento. Apesar de bem enraizado nas tradições japonesas, o aikidô é uma prática em transformação. Em 1950 Mestre Ueshiba é a modernidade na tradição.

Durante este período, Masamichi Noro tem o desejo de estudar jazz e canto na Universidade de Tóquio.

Para satisfazer às suas necessidades, enquanto vive na casa do Mestre Ueshiba ele dá aulas de dança de salão. É uma posição de harmonização com um parceiro, normalmente sem força. A música, a sensação e a intuição guiam os dançarinos.

A partir de 1961, ele é o representante oficial de aikidô na Europa e na África. Ele utiliza técnicas quase marciais para divulgar o aikidô na Europa.

Nos anos 1970, ele conhece sucessivamente Marie-Thérèse Foix e Gisèle de Foix, e a doutora Lily Ehrenfried; é iniciado aos mecanismos corporais, à subtilidade dos alongamentos, ao respeito de seu corpo e ao dos seus parceiros. O valor de um movimento não encontra mais seus fundamentos na eficácia marcial mas no desenvolvimento corporal harmonioso. Cada movimento será testado e modificado mil vezes, e às vezes abandonado, para satisfazer aos critérios intuitivos de respeito corporal e de alongamento, de harmonia. Mais do que nunca o ensinamento de Mestre Noro é uma pesquisa permanente.

Paralelamente, após o que podemos chamar de conquista, ele dá às mulheres o direito de praticar o aikidô em seu dojo. É uma simples brincadeira ou o reconhecimento de um desejo não admitido de abrir sua prática do movimento, o aikidô, para outras perspectivas?

Mais tarde, em 1979, por fidelidade ao seu mestre, ele não pode mais chamar sua prática de “aikidô”. A partir de então, ele cria e ensina o Kinomichi.

Desde que comecei a praticar o Kinomichi, 1990, seus únicos parceiros de prática são mulheres, com exceção das raras demonstrações de ukemi (cambalhota ou queda). É o sinal de uma pesquisa dirigida para uma natureza não-marcial dos movimentos?

Como a biografia do Mestre Noro é uma boa introdução ao Kinomichi? O Kinomichi reúne elementos diversos da vida dele.

A energia sempre vai em direção ao exterior, assim o praticante pensa essencialmente na expiração e deixa a inspiração acontecer. O praticante de Kinomichi deve saber ser flexível e energético no contato com o parceiro assim como o nadador o é com a água. A harmonização com o parceiro é essencial ; não somente na forma mas sobretudo no respeito de sua organização corporal. Esses aspectos de respeito corporal serão encontrados mais tarde explicitados pelo encontro com as diferentes formas alternativas de ginástica (Sra. de Foix e Sra. Noiret e Dra. Erhenfried). O judô e a dança de salão são duas outras formas de harmonização e de contato com o parceiro. Liberando a técnica que ele ensinava de qualquer noção de oposição ou de combate, ele abre o caminho para melhores contatos do coração e do corpo de cada um, sem esquecer as noções de energia.

A importância da energia começou com o judô e se desenvolveu com Mestre Ueshiba. Mestre Noro certamente não aprendeu somente a forma do aikidô de seu mestre. Progressivamente, ele descobre que só a força não é suficiente para fazer passar a energia no movimento. A respiração, a espiral, o sorriso, a flexibilidade, a espiritualidade são necessários para abrir os caminhos da energia no contato. A repetição é importante para aprender e compreender uma técnica. Praticando o aikidô, Mestre Noro perguntou logo a si mesmo: “Esta técnica tão eficaz para destruir pode ser utilizada para construir?”.

O Kinomichi é uma resposta?

Diferentes elementos de sua vida o ajudaram a perceber que o conflito não podia ser uma forma de relação perene com os outros. Além disso, progressivamente ele não pode mais basear a técnica que ensina na oposição, mas na harmonização: o sorriso.

Coloque numa coqueteleira: um pouco de aikidô, de anti-ginástica, de natação, de dança de salão, de judô, de canto, a morte do Japão tradicional dos samurais, o oriente e o ocidente… Bata. Você vai conseguir encontrar o Kinomichi?